terça-feira, 27 de setembro de 2011

Agora. Memória.

Sobre mim, o Mundo.
o mundo 
que me dança, que me sangra, que me pinta, que me sonda, que me usa, que me afeta, que me dorme, que me vê, que me veste, que me ri, que me mente, que me pensa, que me morde, que me sua, que me surra, que me ouve, que me delira, que me lança, que me fala, que me esconde, que me mexe, que me pisa, que me treme, que me embala, que me mostra, que me laça, que me canta, que me pisca, que me sente, que me grita, que me compra, que me zomba, que me torce, que me inquieta, que me inala, que me corta, que me fica, que me chora, que me ruga, que me bebe, que me fura, que me maquia, que me corre, que me engole, que me cega, que me empurra, que me anda, que me cai, que me enfeia, que me lambe, que me enfraquece, que me sofre, que me puta, que me encarece, que me soa, que me pára, que me curte, que me assombra, que me vasculha, que me surda, que me desencanta, que me abraça, que me acorda, que me come, que me enerva, que me transporta, que me embrutece, que me mija, que me corrõe, que me descasca, que me chuva, que me penetra, que me lágrima, que me arrota, que me só, que me move, que me grita, que me deita, que me inutiliza, que me conforta, que me ressona, que me descabela, que me engana, que me brota, que me enraivece, que me cospe, que me puxa, que me nega, que me limita, que me anseia, que me cheira, que me gira, que me entrega, que me some, que me bate, que me enxerga, que me chupa, que me sopa, que me acalenta, que me sorri, que me esquece, que me lava, que me intui, que me perturba, que me vem, que me vai, que me desfalece, que me cuida, que me entra, que me chuta, que me chama, que me regurgita, que me transborda, que me alegra, que me perde, que me ganha, que me envelhece, que me arrasta, que me voa, que me pergunta, que me grava, que me prende, que me testa, que me bole, que me suja, que me honra, que me apazigua, que me introduz, que me descrê, que me comove, que me vigia, que me desfaz, que me disfarça, que me submete, que me começa, que me desembrulha, que me lembra, que me acaba, que me borra, que me amaldiçoa, que me leva, que me descarrega, que me fuma, que me aceita, que me planta, que me gargalha, que me estupra, que me aliena, que me assopra, que me enrijece, que me esbraveja, que me mama, que me pune, que me enfraquece, que me beija, que me disfarça, que me sussurra, que me amolece, que me encara, que me vende, que me irrita, que me foge, que me manda, que me escarra, que me quebra, que me curra, que me seduz, que me machuca, que me escolhe, que me leva, que me cansa, que me suga, que me ensina, que me acena, que me espelha, que me imagina, que me escreve, que me enaltece, que me dramatiza, que me mata, que me cresce, que me muda, que me cura, que me sonha, que me liberta, que me viva, que me viva, que me viva.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sem título

É na doença que meu corpo dá sinais de vida, porque dói. Na dor há vida. O corpo doente não é silencioso. Não é ordenado. Pode revelar todos os mistérios de uma vida.

Essas palavras

Mãe?                        Pai?
Silêncio.
Mãe? Pai?
...
Nenhum som dentro da casa. No exato momento em que essas duas palavras são ditas, somente elas, elas, sozinhas, propagam alguma faísca sonora no espaço pequeno do apartamento noturno. Ar com som. Um chamado. Uma pergunta. Um silêncio. Um espanto. Outro chamado. Um outro silêncio. Um assombro. Um prenúncio de medo. Uma coisa sem reconhecimento estanca dentro do peito, fica parada, sem respirar. Lembro-me que já é tarde. Mãe e Pai não respondem por que já dormem. Mas no momento em que os chamo e não ouço qualquer resposta, penso imediatamente nas palavras mãe e pai. Em como as uso, quando as uso, porque as uso, porque as chamo, porque as falo, porque as grito.
Essas palavras são pessoas. Essas palavras têm cor, mãos, cheiro, altura, peso.  Essas palavras têm início e agora. Essas palavras estão na minha certidão de nascimento, na minha carteira de identidade e sempre estarão em qualquer documento que comprove que eu existo. Essas palavras estão nas fotografias e nas presenças. Estão na casa e na rua. Estão nos abraços, nos beijos na testa, na raiva, nas surras e nos esporros com palavrão. Essas palavras estão na infância, nos brinquedos de menina, nas músicas cantaroladas, no medo do escuro, em muitos objetos que me cercam, nos cuidados, nas faltas, na brasília amarela, no coreto da praça. Essas palavras estão no irmão. Estão no meu tornar gente. Estão dentro das minhas células. Estão no meu modo de andar. Estão nos meus amigos. Estão nos colégios onde estudei. Estão nos primeiros rabiscos no papel. Estão na minha primeira tentativa de falar. Na minha tentativa de lembrar. Estão nas minhas escolhas.
Essas palavras se transformam em amor e também no avesso desse sentimento. Essas palavras me conhecem. Por vezes essas palavras se transformam no que pode haver de mais importante na minha escrita cotidiana. Em outros momentos viram acessórios dos quais preciso me desapegar para garantir a minha autonomia de pessoa. Essas palavras me tratam como a criança que ainda não cresceu. Essas palavras se assustam com a mulher que se impõe, que tem sexo e faz sexo. Essas palavras cuidam da doença. Essas palavras querem o bem, na medida em que entendem o que é o bem. Essas palavras me sustentam, por vezes me machucam e me fazem doer. Essas palavras me inspiram, mas já me causaram medo. Essas palavras têm voz, têm toque. São sujeito, verbo e objeto. Têm alma. Essas palavras são flor e faca.
 Por um momento, dentro da madrugada silenciosa, essas palavras entraram em mim de uma forma ainda não sentida antes.  Interiorizei, sensivelmente, mãe e pai. E, depois de senti-las na intimidade, meu coração saltou para a consciência. Chamar: - Mãe? –Pai? Por quanto tempo ainda poderei usar essas palavras? Por quanto tempo mãe e pai me perguntarão: - Sim? O quê? O que você quer? O que você tem? O que foi? Por quê? Até quando mãe e pai poderão me responder: - Estou aqui. Que Deus te abençoe. Por quanto tempo Mãe e Pai estarão aqui?
Mãe e Pai estão nas minhas primeiras palavras, são minhas primeiras palavras. Serão minhas palavras eternas. São o sempre.

Questões, inquietações, alucinações

- sobre o que encenar, qual o meu objeto artístico?
- o que me move? o que me deixa intranqüila? o que me angustia? o que me comove? o que me deixa cheia de alegria?  o que acalma a minha alma? O que me faz sorrir?
- que texto seria um pretexto para a encenação? que palavras? que tema? o que falar? o que gritar? o que chorar? o que sussurrar? o que amar? eu posso ser a própria escrevinhadora?
- como encenar? por quê encenar?
- que corpo é um corpo cênico? meu corpo é meu comunicador? minha voz me diz?
- eu sou uma mulher do meu tempo? Não tenho objetividade, sou muito subjetiva. Não me interesso por assuntos sobre política. Talvez seja mesmo uma alienada do mundo. Amo a idéia do comunismo, mas sou incapaz de praticá-la, por eu ser individualista. Um dia vou pra Cuba, mesmo assim. Vivo em uma redoma que eu mesma construí pra mim. Às vezes tenho vontade fugir, ou melhor, desaparecer. Desexistir ou desistir. Porque teve um dia em que eu não havia. Sobre notícias de outros lugares e outras pessoas não sei. Eu mesma forjei o meu exílio. Seria eu uma viajante solitária dentro da noite deserta? Eu não tenho vergonha de dizer certas coisas. Essas coisas são tão fortes que precisam aparecer, precisam se soltar e dançar por aí.
- o excesso de subjetividade do tempo em que vivo me faz me voltar para o que é subjetivo apenas. É claro que me preocupo com as causas sociais, com a desigualdade entre as classes, com a miséria, com a deseducação do povo, com a falta de cuidado com a saúde da população, com a ausência de arte na vida da maioria das pessoas do meu país. Mas me preocupo muito mais com a merda de salário que recebo. Não posso sobreviver com ele. Preciso da ajuda de outros para manter minhas necessidades básicas. Um dia quis ser professora porque acreditava que podia ensinar algo para alguém. Num país como o meu isso é uma balela. Vamos deixar todos pobres de tudo, é isso o que se prega! Mas eu não tolero mediocridades. Odeio mediocridade. Por isso quero me retirar desse ofício. Eu não sirvo para ele. E minha mania de subjetividade é maior do que qualquer outro desejo de salvação do povo. Quero antes me salvar. Porque se não me salvo, não me resta nada.
- o excesso de subjetividade do meu tempo não me permite me desapegar do que diz respeito ao meu eu. Sei que não sou só eu que sofro dessa doença. É uma epidemia que se alastrou pelo mundo inteiro. Até Cuba já padece desse mal.
- uma exacerbação de querer e de vazio. Porque é muito querer e por isso, muito vazio. Eu quero tudo e me ofereço nada.
- quero abandonar as velhas coisas, as roupas que não me vestem mais, quero queimar os vestígios de um passado que não mais reconheço como meu.
- e a coragem? Nunca fui destemida. Uma vez li uma escritora que dizia que certas vezes preferiria que sua cabeça fosse guiada por alguém porque assim se dava menos trabalho viver. Porque é difícil escolher, escolher sempre. Sempre. Escolhendo eu me afirmo, eu confirmo quem sou. E cansa ser o tempo todo. Cansa os ossos, a língua, os músculos, os olhos. Cansa a beleza. Cansa a existência.
- já estive farta dos que me diziam o que fazer. Hoje já não os escuto. Eles também se cansaram de falar, de tentar ser o outro. Um respiro... Posso ter me estrepado, posso ter me causado mais dor de cabeça, posso ter me tornado uma insone sem solução, posso não ter onde cair morta. Mas me sinto mais humana, meu coração bate mais forte e a vida me parece menos feia.
- é claro que tenho dúvidas. Dúvidas nebulosas. Acho que serei sempre uma pessoa com uma interrogação na testa. Entendi que faz parte de mim sempre me perguntar. Entendi também que todas essas perguntas todas vêm acompanhadas de um mar de angústia onde mergulho todos os dias. Espero não me afogar nesse mar.
- sou uma mulher ainda criança. Tenho dentro de mim muito amor, mas às vezes não sei como dar. Para aprender preciso da ajuda de adultos ou de pessoas mais experimentadas, ou mais sensíveis, ou mais atentas, ou que simplesmente saibam amar.
-sou uma mulher aborrecida com minha idade, com os números que formam a minha idade no mundo. Mas por que tanta implicância com a matemática da vida? Talvez porque eu não a entenda ou não concorde com ela. Não me aborreço com o tempo. Creio que ele me indica novos caminhos. Mesmo que a pele ou o alongamento do músculo não sejam mais como um dia, eu não amaldiçôo o tempo. Não nego que muitas vezes tenho raiva dele, porque ele me falta, ele me atrasa sempre, ele não deixa cumprir todos os meus planos. Mas implico com o tempo porque ele aumenta os meus anos.  Ao mesmo tempo em que ele me aumenta a vida, ele me diminui vida. E isso o tempo faz com todos, ele conta o dia de todos, o que me faz pensar na infâmia do tempo. Quero estar perto do início da vida, onde tudo brota. Mas vida também brota onde o adubo parece seco. É... o tempo é rei.

...

- tenho coisas para falar, mas às vezes prefiro os monossilábicos, o silêncio, o tédio ou o sono. Dormir me acalma. Sonhar ainda me faz viva.

Por favor, não incomode ou A mulher que não tinha coração ou Tem alguém aqui ou Me devolvam a delicadeza ou Eu não sou um avestruz ou Eu não sou você


Você sabe contar uma história? -  um dia me perguntaram.  Não, eu não tenho cara.
Quem é aquela que anda num passo inconforme?
Já faz muito tempo. Quando eu me conheci, pela primeira vez, eu não tinha esses olhos.
Não sei mais onde pude ter estado esse tempo todo.
Onde você esteve?
Coisas que perdi no meio de mim mesma. Coisas que ganhei dentro da tempestade.
Eu que me faço e desfaço. Eu que não era e continuo não sendo.
O que você faz aqui hoje? Você sabe o que te aguarda? Você se reconhece nessas pessoas? Olhe bem para elas.  Quem são? Você é?
Não estou entre as pessoas. Há restos  daquilo que ainda não foi enterrado. A memória teima em afirmar fatos que não são mais a minha verossimilhança. Finjo que acredito. Rio, porque a seriedade nem sempre é bem vinda. Rio também porque a reinvenção me ensina a diferença. Posso ter sido você, uma rua, uma árvore, um canário. Posso ter sido o vestido vermelho de uma noite de amor. Posso ter sido o amor. Eu, que por vezes me sinto mais humana.

Abandono

Como não? Numa hora como essa em que as coisas se encontram fora do lugar, rasgadas, feridas, expostas. Ela me fala de uma forma amorosa, como alguém que tem um cuidado maternal, um amor que se dá pela harmonia do sentimento. Não se abandone. E isso fica dentro de mim, latejando, com uma vontade sem vontade de combater qualquer momento oportuno em que eu queira agir contra mim. Constantemente ajo contra mim. Me inoculo meu próprio veneno, sem dó e com muita crueldade. Porque eu sou dolorida por natureza. Sempre tive esses olhos tristes. Quando sorria um sorriso leve (porque nunca soube gargalhar), meus olhos não me acompanhavam no pequeno esboço de uma pequena e rara alegria. Eles ficavam estáticos em seu estado sério e comedido. Sou mais triste que alegre. Minha criança assim se ninou e cresceu. Meu ninho é um peito que secou seu leite muito cedo. E o quê fazer com as margaridas que nascem nesse jardinzinho de terra pouco fértil? Porque as margaridas continuam florescendo apesar da falta de sol e de chuva. Simples. Elas insistem. Como as manhãs insistem em ser manhãs, morrendo e nascendo, morrendo e nascendo. Essa insistência me cansa. Aliás, tenho estado cansativa. Porque cansativa é aquela que pensa sobre o cansaço. Apesar desse pensamento às vezes parecer morto e enterrado. Tantas coisas pereceram no meio do caminho de pedra. Não me venha falar que o caminho é também de grama verde. Ele o é somente quando o coração quer.  Desculpe meu mau humor, preciso ficar só – foi o que lhe disse. Uso as palavras como se as compreendesse. Juro. Mas não compreendo. E como fazer com o que não tem completude? E o tempo que é rocha e correnteza? As crianças ensinam o que eu não aprendi, porque me falta. Tenho saudades do que não fui e do que nunca serei um dia. Porque me falta, porque me ausento de mim mesma. Me perdi na minha estrada, porque não sigo setas, porque não as tenho. Meu amor é de perdição, quando ainda há amor, porque ele também resiste a mim.  Espero uma esperança que mora longe e que desconheço o endereço. Aquela menina não morreu. Todos os dias ela me visita, conversa comigo e me lembra o que não quero esquecer. Me dê licença um minuto. Preciso descansar. Correr cansa.  Por que você muda assim tão de repente? Isso é muito ruim – ele pergunta e responde ao mesmo tempo, não respeitando o tempo que a pergunta se coloca como uma pergunta. Não sei e, se sei, não quero falar. Porque falar também cansa. Sempre me calo pelas manhãs, porque meu corpo adormece quando o dia acorda. Sempre me fiz calada, assim me faço sempre. Me interessam quase todas as perguntas e poucas respostas. Embora eu busque um rastro de compreensão. Minha tentativa de compreender tem olho e ouvido. As palavras ditas por mim me parecem estranhas, como se não fossem minhas. Me conheço e me reconheço no silêncio e no mistério que se fazem suspensos no instante em que se pergunta e que se fia uma tentativa de resposta.

Superfície que também (não) é dentro


AQUI ESTOU EU. AQUI ESTÁ MEU CORPO.
PELE, SANGUE, CARNE, OSSOS, LINHAS, CURVAS, DOBRAS, SUPERFÍCIE.
EM TODA A PARTE HÁ MARCAS. HÁ TEMPO.
O QUE FOI OUTRORA JAMAIS SERÁ HOJE.
O HOJE JAMAIS SERÁ FUTURO.

MEU CORPO JÁ COUBE NOS BRAÇOS DE ALGUÉM. AGORA JÁ NÃO CABE MAIS EM MIM.
ATRAVÉS DO ESPELHO VEJO APENAS UMA METÁFORA. ALGO QUE PODE SER OU NÃO É. NÃO HÁ UM PLENO RECONHECIMENTO DO QUE É FORA E DO QUE É DENTRO. POR ISSO CONSTANTEMENTE NÃO ME RECONHEÇO QUANDO ME VEJO FORA. TAMBÉM NÃO ME RECONHEÇO NOS OLHOS DO OUTRO. JÁ FUI TOMADA PELO HORROR AO VER O QUE POSSO SER ATRAVÉS DE UM OUTRO OLHO QUE NÃO O MEU.
HÁ MUITAS MARCAS NESSE CORPO QUE É MEU CAMINHO. CAMINHO ÚNICO, SÓ ELE ME PERTENCE. SÓ TENHO A ELE. POR MAIS QUE ÀS VEZES QUEIRA TOMAR OUTROS RUMOS – PORQUE OS QUE CONHEÇO JÁ ME BASTAM OU ME CANSAM -, SÓ A PISTA QUE O MEU PRÓPRIO CORPO ME DÁ PODE SER CAMINHADA.
MEU CORPO ME ENSINA A VIVER?
TENHO DESEJOS QUE MEU CORPO NÃO PODE ME OFERECER. MEU CORPO TEM DESEJOS QUE, POR VEZES, NÃO SÃO MEUS DESEJOS. RECLAMAMOS UM COM O OUTRO. JÁ NOS AGREDIMOS TAMBÉM.
MUITAS COISAS NÃO ESTÃO MAIS NO LUGAR. HÁ MUITAS COISAS FORA DA ORDEM DO DIA OU DE UMA VIDA INTEIRA. ME TORNO FEITA DE AGORAS QUE NUNCA FORAM PASSADO E QUE TALVEZ SE TORNEM FUTUROS MAIS AMENOS OU MAIS CARREGADOS.
O TEMPO ME CONFUNDE. MEU CORPO ME CONFUNDE. ORA SOU UMA BOCA CHEIA DE DENTES, ORA UM MÚSCULO FLÁCIDO.
TENHO UM CORPO QUE SE FAZ CONCRETO APESAR DE TODA ABSTRAÇÃO DA VIDA. POSSO TOCAR NA IDÉIA, NA IMAGINAÇÃO, NA VISÃO, NO DESEJO E NA CONTRA-VONTADE.
A CARNE POR DENTRO É VERMELHA. OS PRÓPRIOS OLHOS ME PROVOCAM ESTA ILUSÃO.
MEUS MOVIMENTOS NÃO SÃO MEUS. TORNARAM-SE MEUS NO MOMENTO EM QUE PELA PRIMEIRA VEZ PUDE VER O OUTRO MOVIMENTAR-SE. O OUTRO ME ENSINA. POR VEZES APRENDO.
EU SOU EU PORQUE NÃO SOU O OUTRO. ESTE PRINCÍPIO BÁSICO SE FEZ MINHA SALVAÇÃO E MINHA PERDIÇÃO.
QUE PULSÃO ME DOMINA?
MEU CORPO GANHA MAIS TEMPO A CADA DIA. OU PERDE TEMPO? ISTO É INCALCULÁVEL. O QUE SEI É QUE MEU CORPO É O QUE É SOMENTE HOJE. HOJE É A SUA DURAÇÃO.
MEU CORPO GANHA VIDA E MORTE A CADA DIA.

Instantâneos

ontem eu comi corações
há lágrimas, então eu não sou seca
a primeiridade do sentimento
muitos macaquinhos no sótão
bem-vindo, dylan
narek vladmir stragon
o sal da idade
segredos revelados
amor e tempo
pensamentos ligados
noite de supérfluos
metade Amelie
contato e improvisação
irmão moreno
compulsiva obsessiva
cabe a você
expandir-se
tem alguma coisa aí
nada a fazer
rabugice
carne e homem

O ir e vir das coisas


Dou atenção às coisas do mundo. E uma atenção ainda mais cuidadosa ao que está entre mim e o mundo. Mesmo que o mundo seja o meu, em particular. Descubro o que me surpreende, o que me ressalta os medos e o que me oferece contentamento. Reencontro o que já me era conhecido e que se tinha escondido no fundo de minha memória sensível. Trabalho a minha capacidade de me despedir do que me irrita a pele, perturba a mente e polui os sentidos. Trago para junto de mim o que me traz alento quando a vida é dura. Ouço os ventos do norte; eles sopram para me orientar na minha desorganização. Guardo em um esconderijo secreto o pouco de palpável que tenho ao alcance das mãos. Cultivo com delicadeza o que a vida me traz de mais raro e, por isso, precioso. Sorrio. Choro. Sinto os apelos de meu corpo e os respeito. Busco estimular o pensamento, mas que a cabeça não seja minha principal condutora. Quero priorizar o sentimento e, sobretudo, a experiência viva das coisas. A inspiração me é bem-vinda; mesmo – e talvez, principalmente - a que vem depois do sofrimento. O que vem depois da perda é intensíssimo como a própria perda, mas tem outro sabor. A catarse me concede o bem-estar. É lágrima doce. Sugo o que o instante de agora me oferta. Com urgência e voracidade. Sua musicalidade é que me rege. Bailo feliz nos salões desta noite de verão. Sinto-me plena, preencho todos os meus espaços.

Balanço de brisa e vento


Flamejam lençóis, colchas, toalhas. O varal cobre todo o quintal. Campo de terra e folhas secas. A brisa é leve. Pousa suas mãos serenas em panos alvos como nuvens em dias de sol. Como se fosse um carinho de amantes. Tudo o que existe ali, naquele momento, baila uma dança nunca antes vista. A música nunca fora antes tocada.O som não é o dos instrumentos de orquestras. É uma sinfonia que o próprio tempo compõe. E como impressiona o que se ouve e o que se vê. Não há pessoas por perto. Só mesmo a música do tempo e a dança da brisa. O varal festeja a beleza espontaneamente encenada naquele velho quintal. Lugar de histórias tão antigas como o casario colonial, que até hoje coleciona maternidades. Lugar da ancestralidade. Lugar dos banquetes de domingo regados a vinho e à alegria típica de família numerosa e faladeira. Lugar do ancião cajueiro a viver sua centenária velhice. Conheceu a todos que por ali passaram. Continua a oferecer uma imensa e fresca sombra para os que naquele campo de terra vermelha se acostam. Pode-se dormir um dia inteiro debaixo do cajueiro. Pode-se dormir uma noite inteira debaixo do cajueiro. Seus galhos e raízes fazem-se de protetor solar e cobertor. Nesse lugar que se abre em lugares, panos alvíssimos bailam agora uma valsa antiga. Que já não se baila mais. É tão belo de se ver. Como se fosse gente a rememorar os tempos de uma outra aurora. E como estão felizes. Mas sua felicidade não é a que se estampa em sorriso aberto. É uma felicidade que se dá como uma fisgada no peito. À medida que o baile evolui, tomando ventos de grandiosa celebração da vida que já foi viva e da vida que ainda se faz viva, a música do tempo se eleva, como um furacão a estremecer o sólido repouso das coisas. Como se uma fome secular fosse saciada. De comida e bebida fartas. A alguma distância dali, de onde nada se perde de vista, um menino, moreno como fruto da terra, passa suas tardes de infância. Anima de brisa e vento sua solidão de filho primogênito e único de família constituída só de pai. Voa em balanço dependurado em laranjeira. Balança-se, ora como pluma, ora como ave de rapina. Seus vôos mostram-lhe o mundo. Do ponto mais alto que seus pés podem tocar, vê, como num flash dos lambe-lambes, a festa no quintal da única casa vizinha à sua. É um deslumbre só. Seus olhos, amêndoas doces, saltitam felizes. Sua felicidade é daquelas que se sente quando se ganha um brinquedo novo. E o menino voa, alto alto, para a cada ponto do espaço se surpreender mais e mais. Desfruta do prazer de simplesmente olhar. O menino intui que o que se apresenta diante de suas vistas é algo muito raro, como a faísca de um cometa pelos céus noturnos. Sente-se maravilhado. Só ele vê o que vê.