- sobre o que encenar, qual o meu objeto artístico?
- o que me move? o que me deixa intranqüila? o que me angustia? o que me comove? o que me deixa cheia de alegria? o que acalma a minha alma? O que me faz sorrir?
- que texto seria um pretexto para a encenação? que palavras? que tema? o que falar? o que gritar? o que chorar? o que sussurrar? o que amar? eu posso ser a própria escrevinhadora?
- como encenar? por quê encenar?
- que corpo é um corpo cênico? meu corpo é meu comunicador? minha voz me diz?
- eu sou uma mulher do meu tempo? Não tenho objetividade, sou muito subjetiva. Não me interesso por assuntos sobre política. Talvez seja mesmo uma alienada do mundo. Amo a idéia do comunismo, mas sou incapaz de praticá-la, por eu ser individualista. Um dia vou pra Cuba, mesmo assim. Vivo em uma redoma que eu mesma construí pra mim. Às vezes tenho vontade fugir, ou melhor, desaparecer. Desexistir ou desistir. Porque teve um dia em que eu não havia. Sobre notícias de outros lugares e outras pessoas não sei. Eu mesma forjei o meu exílio. Seria eu uma viajante solitária dentro da noite deserta? Eu não tenho vergonha de dizer certas coisas. Essas coisas são tão fortes que precisam aparecer, precisam se soltar e dançar por aí.
- o excesso de subjetividade do tempo em que vivo me faz me voltar para o que é subjetivo apenas. É claro que me preocupo com as causas sociais, com a desigualdade entre as classes, com a miséria, com a deseducação do povo, com a falta de cuidado com a saúde da população, com a ausência de arte na vida da maioria das pessoas do meu país. Mas me preocupo muito mais com a merda de salário que recebo. Não posso sobreviver com ele. Preciso da ajuda de outros para manter minhas necessidades básicas. Um dia quis ser professora porque acreditava que podia ensinar algo para alguém. Num país como o meu isso é uma balela. Vamos deixar todos pobres de tudo, é isso o que se prega! Mas eu não tolero mediocridades. Odeio mediocridade. Por isso quero me retirar desse ofício. Eu não sirvo para ele. E minha mania de subjetividade é maior do que qualquer outro desejo de salvação do povo. Quero antes me salvar. Porque se não me salvo, não me resta nada.
- o excesso de subjetividade do meu tempo não me permite me desapegar do que diz respeito ao meu eu. Sei que não sou só eu que sofro dessa doença. É uma epidemia que se alastrou pelo mundo inteiro. Até Cuba já padece desse mal.
- uma exacerbação de querer e de vazio. Porque é muito querer e por isso, muito vazio. Eu quero tudo e me ofereço nada.
- quero abandonar as velhas coisas, as roupas que não me vestem mais, quero queimar os vestígios de um passado que não mais reconheço como meu.
- e a coragem? Nunca fui destemida. Uma vez li uma escritora que dizia que certas vezes preferiria que sua cabeça fosse guiada por alguém porque assim se dava menos trabalho viver. Porque é difícil escolher, escolher sempre. Sempre. Escolhendo eu me afirmo, eu confirmo quem sou. E cansa ser o tempo todo. Cansa os ossos, a língua, os músculos, os olhos. Cansa a beleza. Cansa a existência.
- já estive farta dos que me diziam o que fazer. Hoje já não os escuto. Eles também se cansaram de falar, de tentar ser o outro. Um respiro... Posso ter me estrepado, posso ter me causado mais dor de cabeça, posso ter me tornado uma insone sem solução, posso não ter onde cair morta. Mas me sinto mais humana, meu coração bate mais forte e a vida me parece menos feia.
- é claro que tenho dúvidas. Dúvidas nebulosas. Acho que serei sempre uma pessoa com uma interrogação na testa. Entendi que faz parte de mim sempre me perguntar. Entendi também que todas essas perguntas todas vêm acompanhadas de um mar de angústia onde mergulho todos os dias. Espero não me afogar nesse mar.
- sou uma mulher ainda criança. Tenho dentro de mim muito amor, mas às vezes não sei como dar. Para aprender preciso da ajuda de adultos ou de pessoas mais experimentadas, ou mais sensíveis, ou mais atentas, ou que simplesmente saibam amar.
-sou uma mulher aborrecida com minha idade, com os números que formam a minha idade no mundo. Mas por que tanta implicância com a matemática da vida? Talvez porque eu não a entenda ou não concorde com ela. Não me aborreço com o tempo. Creio que ele me indica novos caminhos. Mesmo que a pele ou o alongamento do músculo não sejam mais como um dia, eu não amaldiçôo o tempo. Não nego que muitas vezes tenho raiva dele, porque ele me falta, ele me atrasa sempre, ele não deixa cumprir todos os meus planos. Mas implico com o tempo porque ele aumenta os meus anos. Ao mesmo tempo em que ele me aumenta a vida, ele me diminui vida. E isso o tempo faz com todos, ele conta o dia de todos, o que me faz pensar na infâmia do tempo. Quero estar perto do início da vida, onde tudo brota. Mas vida também brota onde o adubo parece seco. É... o tempo é rei.
...
- tenho coisas para falar, mas às vezes prefiro os monossilábicos, o silêncio, o tédio ou o sono. Dormir me acalma. Sonhar ainda me faz viva.
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