Dou atenção às coisas do mundo. E uma atenção ainda mais cuidadosa ao que está entre mim e o mundo. Mesmo que o mundo seja o meu, em particular. Descubro o que me surpreende, o que me ressalta os medos e o que me oferece contentamento. Reencontro o que já me era conhecido e que se tinha escondido no fundo de minha memória sensível. Trabalho a minha capacidade de me despedir do que me irrita a pele, perturba a mente e polui os sentidos. Trago para junto de mim o que me traz alento quando a vida é dura. Ouço os ventos do norte; eles sopram para me orientar na minha desorganização. Guardo em um esconderijo secreto o pouco de palpável que tenho ao alcance das mãos. Cultivo com delicadeza o que a vida me traz de mais raro e, por isso, precioso. Sorrio. Choro. Sinto os apelos de meu corpo e os respeito. Busco estimular o pensamento, mas que a cabeça não seja minha principal condutora. Quero priorizar o sentimento e, sobretudo, a experiência viva das coisas. A inspiração me é bem-vinda; mesmo – e talvez, principalmente - a que vem depois do sofrimento. O que vem depois da perda é intensíssimo como a própria perda, mas tem outro sabor. A catarse me concede o bem-estar. É lágrima doce. Sugo o que o instante de agora me oferta. Com urgência e voracidade. Sua musicalidade é que me rege. Bailo feliz nos salões desta noite de verão. Sinto-me plena, preencho todos os meus espaços.
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