Mãe? Pai?
Silêncio.
Mãe? Pai?
...
Nenhum som dentro da casa. No exato momento em que essas duas palavras são ditas, somente elas, elas, sozinhas, propagam alguma faísca sonora no espaço pequeno do apartamento noturno. Ar com som. Um chamado. Uma pergunta. Um silêncio. Um espanto. Outro chamado. Um outro silêncio. Um assombro. Um prenúncio de medo. Uma coisa sem reconhecimento estanca dentro do peito, fica parada, sem respirar. Lembro-me que já é tarde. Mãe e Pai não respondem por que já dormem. Mas no momento em que os chamo e não ouço qualquer resposta, penso imediatamente nas palavras mãe e pai. Em como as uso, quando as uso, porque as uso, porque as chamo, porque as falo, porque as grito.
Essas palavras são pessoas. Essas palavras têm cor, mãos, cheiro, altura, peso. Essas palavras têm início e agora. Essas palavras estão na minha certidão de nascimento, na minha carteira de identidade e sempre estarão em qualquer documento que comprove que eu existo. Essas palavras estão nas fotografias e nas presenças. Estão na casa e na rua. Estão nos abraços, nos beijos na testa, na raiva, nas surras e nos esporros com palavrão. Essas palavras estão na infância, nos brinquedos de menina, nas músicas cantaroladas, no medo do escuro, em muitos objetos que me cercam, nos cuidados, nas faltas, na brasília amarela, no coreto da praça. Essas palavras estão no irmão. Estão no meu tornar gente. Estão dentro das minhas células. Estão no meu modo de andar. Estão nos meus amigos. Estão nos colégios onde estudei. Estão nos primeiros rabiscos no papel. Estão na minha primeira tentativa de falar. Na minha tentativa de lembrar. Estão nas minhas escolhas.
Essas palavras se transformam em amor e também no avesso desse sentimento. Essas palavras me conhecem. Por vezes essas palavras se transformam no que pode haver de mais importante na minha escrita cotidiana. Em outros momentos viram acessórios dos quais preciso me desapegar para garantir a minha autonomia de pessoa. Essas palavras me tratam como a criança que ainda não cresceu. Essas palavras se assustam com a mulher que se impõe, que tem sexo e faz sexo. Essas palavras cuidam da doença. Essas palavras querem o bem, na medida em que entendem o que é o bem. Essas palavras me sustentam, por vezes me machucam e me fazem doer. Essas palavras me inspiram, mas já me causaram medo. Essas palavras têm voz, têm toque. São sujeito, verbo e objeto. Têm alma. Essas palavras são flor e faca.
Por um momento, dentro da madrugada silenciosa, essas palavras entraram em mim de uma forma ainda não sentida antes. Interiorizei, sensivelmente, mãe e pai. E, depois de senti-las na intimidade, meu coração saltou para a consciência. Chamar: - Mãe? –Pai? Por quanto tempo ainda poderei usar essas palavras? Por quanto tempo mãe e pai me perguntarão: - Sim? O quê? O que você quer? O que você tem? O que foi? Por quê? Até quando mãe e pai poderão me responder: - Estou aqui. Que Deus te abençoe. Por quanto tempo Mãe e Pai estarão aqui?
Mãe e Pai estão nas minhas primeiras palavras, são minhas primeiras palavras. Serão minhas palavras eternas. São o sempre.
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