segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Balanço de brisa e vento


Flamejam lençóis, colchas, toalhas. O varal cobre todo o quintal. Campo de terra e folhas secas. A brisa é leve. Pousa suas mãos serenas em panos alvos como nuvens em dias de sol. Como se fosse um carinho de amantes. Tudo o que existe ali, naquele momento, baila uma dança nunca antes vista. A música nunca fora antes tocada.O som não é o dos instrumentos de orquestras. É uma sinfonia que o próprio tempo compõe. E como impressiona o que se ouve e o que se vê. Não há pessoas por perto. Só mesmo a música do tempo e a dança da brisa. O varal festeja a beleza espontaneamente encenada naquele velho quintal. Lugar de histórias tão antigas como o casario colonial, que até hoje coleciona maternidades. Lugar da ancestralidade. Lugar dos banquetes de domingo regados a vinho e à alegria típica de família numerosa e faladeira. Lugar do ancião cajueiro a viver sua centenária velhice. Conheceu a todos que por ali passaram. Continua a oferecer uma imensa e fresca sombra para os que naquele campo de terra vermelha se acostam. Pode-se dormir um dia inteiro debaixo do cajueiro. Pode-se dormir uma noite inteira debaixo do cajueiro. Seus galhos e raízes fazem-se de protetor solar e cobertor. Nesse lugar que se abre em lugares, panos alvíssimos bailam agora uma valsa antiga. Que já não se baila mais. É tão belo de se ver. Como se fosse gente a rememorar os tempos de uma outra aurora. E como estão felizes. Mas sua felicidade não é a que se estampa em sorriso aberto. É uma felicidade que se dá como uma fisgada no peito. À medida que o baile evolui, tomando ventos de grandiosa celebração da vida que já foi viva e da vida que ainda se faz viva, a música do tempo se eleva, como um furacão a estremecer o sólido repouso das coisas. Como se uma fome secular fosse saciada. De comida e bebida fartas. A alguma distância dali, de onde nada se perde de vista, um menino, moreno como fruto da terra, passa suas tardes de infância. Anima de brisa e vento sua solidão de filho primogênito e único de família constituída só de pai. Voa em balanço dependurado em laranjeira. Balança-se, ora como pluma, ora como ave de rapina. Seus vôos mostram-lhe o mundo. Do ponto mais alto que seus pés podem tocar, vê, como num flash dos lambe-lambes, a festa no quintal da única casa vizinha à sua. É um deslumbre só. Seus olhos, amêndoas doces, saltitam felizes. Sua felicidade é daquelas que se sente quando se ganha um brinquedo novo. E o menino voa, alto alto, para a cada ponto do espaço se surpreender mais e mais. Desfruta do prazer de simplesmente olhar. O menino intui que o que se apresenta diante de suas vistas é algo muito raro, como a faísca de um cometa pelos céus noturnos. Sente-se maravilhado. Só ele vê o que vê.

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