Como não? Numa hora como essa em que as coisas se encontram fora do lugar, rasgadas, feridas, expostas. Ela me fala de uma forma amorosa, como alguém que tem um cuidado maternal, um amor que se dá pela harmonia do sentimento. Não se abandone. E isso fica dentro de mim, latejando, com uma vontade sem vontade de combater qualquer momento oportuno em que eu queira agir contra mim. Constantemente ajo contra mim. Me inoculo meu próprio veneno, sem dó e com muita crueldade. Porque eu sou dolorida por natureza. Sempre tive esses olhos tristes. Quando sorria um sorriso leve (porque nunca soube gargalhar), meus olhos não me acompanhavam no pequeno esboço de uma pequena e rara alegria. Eles ficavam estáticos em seu estado sério e comedido. Sou mais triste que alegre. Minha criança assim se ninou e cresceu. Meu ninho é um peito que secou seu leite muito cedo. E o quê fazer com as margaridas que nascem nesse jardinzinho de terra pouco fértil? Porque as margaridas continuam florescendo apesar da falta de sol e de chuva. Simples. Elas insistem. Como as manhãs insistem em ser manhãs, morrendo e nascendo, morrendo e nascendo. Essa insistência me cansa. Aliás, tenho estado cansativa. Porque cansativa é aquela que pensa sobre o cansaço. Apesar desse pensamento às vezes parecer morto e enterrado. Tantas coisas pereceram no meio do caminho de pedra. Não me venha falar que o caminho é também de grama verde. Ele o é somente quando o coração quer. Desculpe meu mau humor, preciso ficar só – foi o que lhe disse. Uso as palavras como se as compreendesse. Juro. Mas não compreendo. E como fazer com o que não tem completude? E o tempo que é rocha e correnteza? As crianças ensinam o que eu não aprendi, porque me falta. Tenho saudades do que não fui e do que nunca serei um dia. Porque me falta, porque me ausento de mim mesma. Me perdi na minha estrada, porque não sigo setas, porque não as tenho. Meu amor é de perdição, quando ainda há amor, porque ele também resiste a mim. Espero uma esperança que mora longe e que desconheço o endereço. Aquela menina não morreu. Todos os dias ela me visita, conversa comigo e me lembra o que não quero esquecer. Me dê licença um minuto. Preciso descansar. Correr cansa. Por que você muda assim tão de repente? Isso é muito ruim – ele pergunta e responde ao mesmo tempo, não respeitando o tempo que a pergunta se coloca como uma pergunta. Não sei e, se sei, não quero falar. Porque falar também cansa. Sempre me calo pelas manhãs, porque meu corpo adormece quando o dia acorda. Sempre me fiz calada, assim me faço sempre. Me interessam quase todas as perguntas e poucas respostas. Embora eu busque um rastro de compreensão. Minha tentativa de compreender tem olho e ouvido. As palavras ditas por mim me parecem estranhas, como se não fossem minhas. Me conheço e me reconheço no silêncio e no mistério que se fazem suspensos no instante em que se pergunta e que se fia uma tentativa de resposta.
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