quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um dia como qualquer outro

      Efigênia é uma mulher de, aproximadamente, 35 anos.
    Tem a pele morena, olhos castanhos escuros e cabelos pretos ondulados na altura do ombro.
      É magra e esguia, de estatura mediana.
    Efigênia é uma mulher silenciosa. Fala pouco e faz pouco barulho. Gosta de música clássica, tendo Chopin como seu compositor de predileção.
     Estudou datilografia e secretariado. Confecciona suas próprias roupas, aprendeu a costurar com sua mãe. Lê romances Sabrina, Júlia e Bianca.  Sonha um dia escrever seus próprios romances.
     É filha única de um casal de agricultores que vivem em uma pequena cidade ao sul do país.  Abandonou a casa dos pais aos trinta anos para procurar emprego em uma cidade maior onde pudesse trabalhar como datilógrafa ou secretária. Sonha em trabalhar em um escritório de advocacia.
    Mora há cinco anos em um pequeno apartamento de um quarto no centro de Feliz Espera. Não conseguiu o emprego que tanto desejava. No entanto, não reclama do trabalho que lhe dá o seu sustento. Há três anos é funcionária dos Correios, onde executa a função de separar as correspondências por endereços de destinatários. Trabalha cinco dias por semana, 40 horas semanais. Gosta de seu trabalho, realiza-o de forma competente.
   Uma vez por semana Efigênia canta no coral de Feliz Espera, há exatos dois anos, assiduamente. O grupo se reúne há quatro anos no salão paroquial da única igreja católica da cidade. O coro tem em seu repertório músicas sacras, especialmente, medievais.
   Efigênia conheceu Juliano num dos encontros do canto coral. Juliano freqüenta o grupo desde a sua fundação. Ele não canta, mas faz o acompanhamento das músicas ao teclado, juntamente com um violonista.  Juliano é soldado. Trabalha num posto do exército localizado na fronteira de Feliz Espera com Auriverde.  Juliano é dez anos mais jovem que Efigênia.
   Efigênia e Juliano são noivos há um ano. Pretendem se casar assim que Juliano retornar de uma missão pacificadora em um país vizinho. Os dois, quinzenalmente, se correspondem por cartas. Efigênia conta os dias para a volta de Juliano.

  
É quarta-feira. Efigênia realiza seu trabalho como de costume. Todos os dias correspondências para separar e empilhar. Semana sim, semana não, uma carta de Juliano. Ao final do expediente, Efigênia se despede de Marta, sua companheira de sessão e dos demais colegas de trabalho.
Sai da agência dos correios por volta das 17:30. Faz o seu caminho habitual de volta para casa. Caminha, como todos os dias, cerca de meia hora. Gosta de caminhar.
Chega ao seu apartamento aproximadamente às 18h, quando toca o sino da paróquia local.


domingo, 16 de outubro de 2011

Então é assim que se morre?

É cedo, o sol brilha.
Tudo poderia se dar como acontece nos dias comuns.
Abri os olhos. Acordei diferente. Eu ainda não tinha me percebido.
De repente, me fiz escuridão.
O tempo fechou, minha visão só pode ver o escuro do tempo.

(O que estou tentando fazer agora é um esforço de memória, é a tentativa de lembrar do que ainda resta ou do que invento como lembrança. Eu quero crer  que o que penso agora possa guardar o sentimento do instante em que a coisa se fez matéria)

A coisa me apareceu de súbito. Era uma desconhecida.
Ela surgiu negra como a noite e me engoliu com sua grande boca.
Meu gosto ficou amargo.
Eu me apaguei.

Antes do total desfalecimento ainda pude tocar minhas mãos frágeis nos objetos ao redor, que, por um breve momento, me ofereceram sustentação. Minhas pernas buscavam equilibrar-se, manter-se firmes. Exercício vão.  Meus pés derretiam e se misturavam à água que corria como um rio caudaloso.

Antes do total desfalecimento ainda pude me reconhecer. Pude me lembrar da bendita palavra dentre todas as que existem. E a palavra, tendo se feito gente, foi minha salvação.

Me apago. Me apago.
Um fiapo de luz entra em mim. Me acendo fracamente, para depois me apagar de novo.

Escuto meu nome, gritado desesperadamente. Os mesmos gritos desesperados me sacodem e me arrastam, na tentativa de que a vida não escape. O corpo falha e se perde no meio de si mesmo. O corpo falha mas ainda se ressurge a favor de si.
Um tapa no rosto choca meu cérebro e me conduz à pergunta mais profunda que minha cabeça já pode ter se feito: Então é assim que se morre?

Um prenúncio, um toque, um acontecimento, um registro, um estado, um sentimento.

Uma pergunta.

Um corpo que cala e fala.



domingo, 2 de outubro de 2011

Um nome

Eu tenho um nome que não me chama, nunca me chamou. Eu nunca me senti sendo chamada por esse nome, sendo identificada com ele, sendo ele, ele me sendo, ele reverberando em mim.
Tantas vezes eu me perguntei: Por quê?
O meu nome não se parece comigo, não me cola em mim, não me ressona. O meu nome não me nomeia.
Meu nome não é onde eu possa mergulhar.
É permitido que eu escolha um nome pra mim? É permitido que eu me dê um nome, um nome conforme eu me veja e reveja? Um nome que me faça, que me constitua, que me dê inteireza?
Há um nome identidade-de-mim, memória-de-mim, cópia-autenticada-de-mim, assinatura-de-mim?
(Fogos de artifício)
Esses fogos são uma ode ao nome que eu possa me sonhar, ao nome com o qual eu possa me batizar.
Um nome nomeia, portanto, diz o que a coisa é, o que significa e o que pode ser. Não é?
E o que pode ser?
Por que não bicho? Por que não árvore? Por que não pé? Gaiola? Chave? Livro? Nuvem? Janela? Peito? Labirinto? Água? Pedra? Brinquedo? Asa? Coisa? Silêncio? Por quê? Um nome serve pra quê?
Eu sempre estranho o nome com que me chamam. Às vezes eu faço com que a pessoa repita o meu nome duas, três vezes, para que eu realmente possa entender que ela se refere a mim, eu, com esse nome, com aquele nome.
O meu nome é meu?
Por que ter um nome?
Meu nome me diz a mim quem eu sou? Meu nome me percebe, me compreende, me localiza, me preenche, me expressa, me corporifica, me dá alma? Meu nome reconhece o meu passado e o meu eu que está sendo agora nesse instante que passa e que vai passando?
Pra que um nome? Por que um nome?
Em que nome eu estaria? Que nome eu seria?

sábado, 1 de outubro de 2011

Borboletas


Certa vez eu avistei na rua de uma passagem, um menino com um chapéu amarelo. Ele caminhava levemente sobre a calçada. Seu corpo era magro, esguio e forte. Ele andava sem olhar para os lados ou para o chão, como se buscasse algo. O menino procurava algo que ele já sabia o que era. Mas o seu saber era também de surpresa. Ele achava que ele sabia. Ele sentia que achava que sabia. Mas às vezes o pensamento é vão, cheio de desvãos. Cheio de vãos, de vã filosofia. O menino de chapéu amarelo tinha acima de sua cabeça borboletas. Borboletas que ora pousavam delirantes, ora iam dormir num ninho dentro dos seus sapatos. O menino passava pela passagem da rua. Ninguém o via e ele via tudo. Somente uma velha senhora, sentada numa cadeira ancestral debaixo de uma janela azul, de olhos muito pequenos, mas que os óculos de graus fortes aumentavam, o observava plácida. Ela acenava para ele, junto com ele, um para o outro, somente com os olhos. A senhora sabia que ele via o que via, pois ela também via. A velha caminhava através das pupilas. Já não podia mais se locomover.  Ficava sentada ali todos os dias, a observar o que restava de vida, a olhar as suas unhas crescerem, os seus cabelos a embranquecer e a sua pele ganhando mais rugas, mais idade. Ela era feliz. O menino continuava a sua trajetória. Por um instante, antes de sumir no fim da rua da passagem, se voltou mais pausadamente para a velha senhora. Se despediu dela alegremente com os olhos e seguiu o seu caminho. As borboletas continuavam a voar em cima da sua cabeça de chapéu amarelo. As borboletas o guiariam? Elas o guiam?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Agora. Memória.

Sobre mim, o Mundo.
o mundo 
que me dança, que me sangra, que me pinta, que me sonda, que me usa, que me afeta, que me dorme, que me vê, que me veste, que me ri, que me mente, que me pensa, que me morde, que me sua, que me surra, que me ouve, que me delira, que me lança, que me fala, que me esconde, que me mexe, que me pisa, que me treme, que me embala, que me mostra, que me laça, que me canta, que me pisca, que me sente, que me grita, que me compra, que me zomba, que me torce, que me inquieta, que me inala, que me corta, que me fica, que me chora, que me ruga, que me bebe, que me fura, que me maquia, que me corre, que me engole, que me cega, que me empurra, que me anda, que me cai, que me enfeia, que me lambe, que me enfraquece, que me sofre, que me puta, que me encarece, que me soa, que me pára, que me curte, que me assombra, que me vasculha, que me surda, que me desencanta, que me abraça, que me acorda, que me come, que me enerva, que me transporta, que me embrutece, que me mija, que me corrõe, que me descasca, que me chuva, que me penetra, que me lágrima, que me arrota, que me só, que me move, que me grita, que me deita, que me inutiliza, que me conforta, que me ressona, que me descabela, que me engana, que me brota, que me enraivece, que me cospe, que me puxa, que me nega, que me limita, que me anseia, que me cheira, que me gira, que me entrega, que me some, que me bate, que me enxerga, que me chupa, que me sopa, que me acalenta, que me sorri, que me esquece, que me lava, que me intui, que me perturba, que me vem, que me vai, que me desfalece, que me cuida, que me entra, que me chuta, que me chama, que me regurgita, que me transborda, que me alegra, que me perde, que me ganha, que me envelhece, que me arrasta, que me voa, que me pergunta, que me grava, que me prende, que me testa, que me bole, que me suja, que me honra, que me apazigua, que me introduz, que me descrê, que me comove, que me vigia, que me desfaz, que me disfarça, que me submete, que me começa, que me desembrulha, que me lembra, que me acaba, que me borra, que me amaldiçoa, que me leva, que me descarrega, que me fuma, que me aceita, que me planta, que me gargalha, que me estupra, que me aliena, que me assopra, que me enrijece, que me esbraveja, que me mama, que me pune, que me enfraquece, que me beija, que me disfarça, que me sussurra, que me amolece, que me encara, que me vende, que me irrita, que me foge, que me manda, que me escarra, que me quebra, que me curra, que me seduz, que me machuca, que me escolhe, que me leva, que me cansa, que me suga, que me ensina, que me acena, que me espelha, que me imagina, que me escreve, que me enaltece, que me dramatiza, que me mata, que me cresce, que me muda, que me cura, que me sonha, que me liberta, que me viva, que me viva, que me viva.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sem título

É na doença que meu corpo dá sinais de vida, porque dói. Na dor há vida. O corpo doente não é silencioso. Não é ordenado. Pode revelar todos os mistérios de uma vida.

Essas palavras

Mãe?                        Pai?
Silêncio.
Mãe? Pai?
...
Nenhum som dentro da casa. No exato momento em que essas duas palavras são ditas, somente elas, elas, sozinhas, propagam alguma faísca sonora no espaço pequeno do apartamento noturno. Ar com som. Um chamado. Uma pergunta. Um silêncio. Um espanto. Outro chamado. Um outro silêncio. Um assombro. Um prenúncio de medo. Uma coisa sem reconhecimento estanca dentro do peito, fica parada, sem respirar. Lembro-me que já é tarde. Mãe e Pai não respondem por que já dormem. Mas no momento em que os chamo e não ouço qualquer resposta, penso imediatamente nas palavras mãe e pai. Em como as uso, quando as uso, porque as uso, porque as chamo, porque as falo, porque as grito.
Essas palavras são pessoas. Essas palavras têm cor, mãos, cheiro, altura, peso.  Essas palavras têm início e agora. Essas palavras estão na minha certidão de nascimento, na minha carteira de identidade e sempre estarão em qualquer documento que comprove que eu existo. Essas palavras estão nas fotografias e nas presenças. Estão na casa e na rua. Estão nos abraços, nos beijos na testa, na raiva, nas surras e nos esporros com palavrão. Essas palavras estão na infância, nos brinquedos de menina, nas músicas cantaroladas, no medo do escuro, em muitos objetos que me cercam, nos cuidados, nas faltas, na brasília amarela, no coreto da praça. Essas palavras estão no irmão. Estão no meu tornar gente. Estão dentro das minhas células. Estão no meu modo de andar. Estão nos meus amigos. Estão nos colégios onde estudei. Estão nos primeiros rabiscos no papel. Estão na minha primeira tentativa de falar. Na minha tentativa de lembrar. Estão nas minhas escolhas.
Essas palavras se transformam em amor e também no avesso desse sentimento. Essas palavras me conhecem. Por vezes essas palavras se transformam no que pode haver de mais importante na minha escrita cotidiana. Em outros momentos viram acessórios dos quais preciso me desapegar para garantir a minha autonomia de pessoa. Essas palavras me tratam como a criança que ainda não cresceu. Essas palavras se assustam com a mulher que se impõe, que tem sexo e faz sexo. Essas palavras cuidam da doença. Essas palavras querem o bem, na medida em que entendem o que é o bem. Essas palavras me sustentam, por vezes me machucam e me fazem doer. Essas palavras me inspiram, mas já me causaram medo. Essas palavras têm voz, têm toque. São sujeito, verbo e objeto. Têm alma. Essas palavras são flor e faca.
 Por um momento, dentro da madrugada silenciosa, essas palavras entraram em mim de uma forma ainda não sentida antes.  Interiorizei, sensivelmente, mãe e pai. E, depois de senti-las na intimidade, meu coração saltou para a consciência. Chamar: - Mãe? –Pai? Por quanto tempo ainda poderei usar essas palavras? Por quanto tempo mãe e pai me perguntarão: - Sim? O quê? O que você quer? O que você tem? O que foi? Por quê? Até quando mãe e pai poderão me responder: - Estou aqui. Que Deus te abençoe. Por quanto tempo Mãe e Pai estarão aqui?
Mãe e Pai estão nas minhas primeiras palavras, são minhas primeiras palavras. Serão minhas palavras eternas. São o sempre.