Naquele meu andar sonolento de uma manhã dentre outras manhãs, a rua passa. Passam árvores que mudam de cor, pessoas em suas rotinas desencontradas, carros a disputar a velocidade da pista. Eu passo nessa rua que passa. E como uma fricção na paisagem já conhecida, passa o carro que anuncia o que não serve mais: - Compro material que você não quer, grita o megafone. Este inusitado reverbera em mim. Compra-se o velho, o quebrado, o desusado, o que não tem mais jeito, o que não tem mais valor, aquilo que não é mais desejado, aquilo que está fora do tempo, o que está doente, o que é antigo, o rejeitado, o que não funciona, o que não pega no tranco, o que ninguém mais utiliza, o que é negado. Esse acontecimento nos segundos da minha manhã me estremeceu toda. Quem dá a sentença do fim das coisas? Sim, há o fim das coisas. E também o quase fim, o entremeio, que é um fôlego antes do fim. E nesse antes do final das coisas há ainda o que se fazer. Há a vida que sopra ainda. O restinho de respiração que acena frágil e desejosa de vida. A vida mesma que insiste em estar sendo vida. A vida que, esperta, negocia. A vida que ainda quer jogar. A vida que quer ver um pouco mais do mundo. A vida que pede um tempo para a morte. E que bonito, não? Há quem queira saber daquilo que está no meio do caminho; há quem se dedique, por pura vontade, àquilo que já muito viveu e que ainda não quer descansar para sempre. Sorri para a possibilidade de uma segunda chance para as coisas. Sorri para Deus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário