O que sei ou acho que sei um pouco de mim, do que tenho dentro, do que tenho fora, do que me constitui no pensamento, no sentimento, na palavra, na sensação, na percepção, na intuição e tudo o que possa estar expresso nessa relação de mim comigo mesma e com o mundo que aí está a dar voltas parte da memória que me faz viva.
Sou o que acho que sou e o que descubro em um novo momento sendo ou deixando de ser, por meio desse canal invisível, mas, ao mesmo tempo, palpável, que é a memória. A memória tem esse duplo, não se vê e, no entanto, se vê toda.
A memória é minha identidade. Diz quem eu sou em relação a mim e ao outro. Ela estando em mim me sinto mais cômoda, mais calma desse medo de poder me perder de mim mesma. A memória quando bálsamo, me alegra toda, alarga meu sorriso. Quando punhal, me fere, me rasga, me chora, mas ainda assim me afaga por não me fazer me esquecer de mim. Se esquecer de si é terrível. Mas traz também sanidade.
Meu pai tem Alzheimer. Ele todos os dias se esquece de um bocadinho de cada coisa: o dia no calendário, a refeição, o lugar, o banho, os números, as horas. Ele todos os dias toma uma memória pela outra: o nome da esposa pelo nome da mãe, o que passou com o filho pelo o o que experienciou com a filha, a irmã que ainda vive pela irmã morta, o que viveu há anos atrás pelo o que acaba de viver. Ele todos os dias está no passado do presente. Ele todos os dias é o menino pobre que corria pela praia de Maceió, tomava banho de rio, e tinha como bichinhos de estimação a ovelha Maninha e a porquinha Lelo-Leco. Ele todos os dias inventa histórias que nunca existiram. Meu pai é um contador de histórias.
A memória que é minha no momento me dá informações que me permitem me remeter a mim mesma, me dar referências, me apontar direções, me projetar sonhos. Sei que nesse momento em que escrevo sou Fabiana e que tenho um mar de desejos a desbravar. Minha memória me permite guardá-la; isso é um presente generosíssimo que ela me oferece. Porque posso guardar memória me faço gente. E nesse caminho de ser gente, lembro, esqueço, vacilo, palpito, omito, minto, tomo emprestado, crio, costuro, refabulo, engulo, dou tchau. Minha memória me faz nascer, crescer, me reproduzir em muitas e morrer. Minha memória é minha ancestralidade, sou eu, o outro, e tudo o que está no intermédio e além.
A memória é um labirinto. Vai, segue, volta, perde, vira, olha, retorna, para, corre, gira, dança, senta, esquece, teme, treme, passeia, pergunta, cega, desiste, insiste, embaralha, lembra, conserta, dói, sufoca, cansa, inventa, escolhe, apaga, mente, trai, revela, emudece, seca.
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