É cedo, o sol brilha.
Tudo poderia se dar como acontece nos dias comuns.
Abri os olhos. Acordei diferente. Eu ainda não tinha me percebido.
De repente, me fiz escuridão.
O tempo fechou, minha visão só pode ver o escuro do tempo.
(O que estou tentando fazer agora é um esforço de memória, é a tentativa de lembrar do que ainda resta ou do que invento como lembrança. Eu quero crer que o que penso agora possa guardar o sentimento do instante em que a coisa se fez matéria)
A coisa me apareceu de súbito. Era uma desconhecida.
Ela surgiu negra como a noite e me engoliu com sua grande boca.
Meu gosto ficou amargo.
Eu me apaguei.
Antes do total desfalecimento ainda pude tocar minhas mãos frágeis nos objetos ao redor, que, por um breve momento, me ofereceram sustentação. Minhas pernas buscavam equilibrar-se, manter-se firmes. Exercício vão. Meus pés derretiam e se misturavam à água que corria como um rio caudaloso.
Antes do total desfalecimento ainda pude me reconhecer. Pude me lembrar da bendita palavra dentre todas as que existem. E a palavra, tendo se feito gente, foi minha salvação.
Me apago. Me apago.
Um fiapo de luz entra em mim. Me acendo fracamente, para depois me apagar de novo.
Escuto meu nome, gritado desesperadamente. Os mesmos gritos desesperados me sacodem e me arrastam, na tentativa de que a vida não escape. O corpo falha e se perde no meio de si mesmo. O corpo falha mas ainda se ressurge a favor de si.
Um tapa no rosto choca meu cérebro e me conduz à pergunta mais profunda que minha cabeça já pode ter se feito: Então é assim que se morre?
Um prenúncio, um toque, um acontecimento, um registro, um estado, um sentimento.
Uma pergunta.
Um corpo que cala e fala.
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