Estou a pensar que os dias têm passado velozmente, rasgando-me toda, tudo em mim. Despida me deixa, enlouquecida me deixa. Fico de toda assustada. Espantada mesmo. Meu coração desvairado fica a sambar por aí. Pra lá pra cá. Em compasso de rápido. O descompassado dos segundos. Fica faltando-lhe a pausa necessária pra se fazer a canção. A canção pro dia, pro horário do meio, e pro vir da noite. Fica tudo junto, como se não houvesse mais a hora inventada dos homens. E não há hora decidida pras coisas de lá de trás do ontem e pras que virão do dia que antecede o fim. O que há é esse íntimo de tempo de agora em que minha respiração se afunda. Aqui a existência se instala todinha, acolhida, e se deita de corpo espreguiçado. Aqui, meu agora é meu. Sinto-o dando-me fogo interno, percorrendo meus líquidos, inundando minhas carnes. Entendo da forma que me é possível. Nesse agora em que estou inteira, a noite se coloca grande, gorda, negra, molhada, voluptuosa, insaciável, inteira. Ela se põe a morder em amolecido deleite os que nela se abrigam. Se faz majestosa sobre todos os seres. Porque assim é sua natureza. Agora estou aqui pousada, como um passarinho prestes a soltar sua próxima nota de canto. Tenho a cabeça levemente voltada para cima, o corpo descansado e escuto os sons da noite que pinga forte e incansável. Vastidão. Assim estou, envolta em toda a grandeza que o instante me dá como presente de se fazer instante.
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