segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sala de visita


Sons de lá de fora. Meus olhos olham para cá dentro. Há estágios de passagem. O que me traz para o cognoscível. O que me leva para o inesperado. Fecho as janelas de minha fronte. Sei chegar até a tela em preto e branco. Nem sempre o caminho se abre. É preciso estar atento. E querer pintar, mesmo sem cor, os quadros que se sucedem como slides. Ainda há possibilidades de ligar ou desligar o botão. Tenho digitais que atendem a meus comandos. O desejo me faz passear por terras de que não tenho conhecimento. Estou certa de onde estou, mesmo sem saber o nome. Também não sei aonde posso chegar. Entrego-me. A tela, preta e branca, me oferece tons cinzas. Meu corpo, mesmo inerte, reage. Arrisco todas as possibilidades do cinza. (O que se dá é nas entranhas). Um maravilhamento só. As fotografias se revelam uma atrás à outra, numa rapidez de filme em sessão Odeon. Deslumbro a grandiosidade das imagens, por meus sentidos postas na tela. É um acontecimento de mistérios. Sei que lá estou. A andar um caminho cheio de outros caminhos.Visito casa em meio a um vasto campo. Sem a cor verde das copas das árvores, mas entre fazendas como as dos jogos de crianças. Dedos de mãos curiosas se dão à aventura do universo de Senhor Baltazar. Foi um menino que assim o iluminou. Disparo um vôo panorâmico. Posso tudo enxergar lá de cima. De repente, plano. E como num estalo, me descubro a percorrer os arredores. Portas se abrem sem que se toque as maçanetas. E assim vou adentrando em cômodos de azuis azulejos. Como nos tempos da tia de farta cabeleira branca, óculos a pesar o rosto, vestido de chita flor, sandálias a arrastar chão. Tia agora por aqui não mais aparece. Somente o gordo gato amarelo continua a praticar sua existência: some por uns dias a procurar companheiras que lhe acalmem os gemidos. Quando regressa, toma placidamente e a lamber os bigodes o leite sagrado em pires de há mais de décadas. Encontro sentado à minha frente um homem a ler jornal e a comer torradas. Ele conversa comigo como se sua conhecida fosse. Digo que ali estou de passagem e à procura de alguém que desconheço. O homem, tranqüilo a olhar notícias, fala que não tarda quem procuro. Posso ficar ali, estando. Se preferir, passeio pela casa. Nada digo ao homem e ele aceita. Sigo pelos cômodos. O espelho reflete meus olhos pequenos, como os de uma oriental. Imagino-me com outro semblante. Descubro uma criança morena de lisos cabelos negros. É esse menino que procuro. Não em sua condição de criança. Mas em seu estágio adulto. Fico feliz com o encontro. O menino me leva a conhecer seu quarto, seus brinquedos e brincadeiras. Através de infindáveis janelas vejo campos de frutos. O menino me conta que ali brinca todo dia santo e que no finzinho da tarde traz para casa uma caixa abarrotada de frutos frescos. Dezenas de tangerinas cascatam diante de minha fronte. Divirto-me com o encantamento. Uma mulher aparece em outra parte da casa. Fugaz aparição. Veste avental e prepara massa de bolo. Seu olhar raivoso insinua um desagradado com minha presença. Pisco e a mulher já não existe. Quando me apercebo de mim, não tenho mais a companhia do menino. Sinto-me triste, choro convulsivamente. Salivo o sal das lágrimas. O gentil homem aparece à porta. Distribui álbuns de fotografias. Ao folheá-los, meus sentidos vão se acalmando. Sinto-me feliz paulatinamente. Cada álbum para mim é incógnito. Desenhos estranhamente belos e indecifráveis. Posso ler em braile. E sorrio feliz feliz. Então, aparece-me, como num flash, a pessoa que buscava lá no início de todas as coisas. Homem de imenso encarnado sorriso. Homem-Clown. Exalto-me de uma alegria que palpita como um coração que pronuncia batidas descompassadas e velocíssimas. Ficamos um ao lado do outro. A sentir o que pulsa da presença. No fundo do que é mais sem fundo, os buraquinhos da existência sopram violentamente um ar que de tão dentro, explosivo. Tenho um mar nos olhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário