Noite passada recebi um presente de um menino de nome muito extenso. Gob foi o nome que lhe dei. Faz desenhos tristes. De pessoas nem sempre tristes. Desenha o que existe e o que não existe. Quando se cansa de ser Gob, passa a viver a vida de seus desenhos. Fala de gentes do Cáucaso e de lugares lá do outro lado. Tenta aprender sempre uma palavra nova de línguas de que não tenho conhecimento. Talvez saiba Esperanto. Gosta da correspondência de cartas, mesmo quando elas não chegam mais. Vive rodeado por diamantes dispostos geograficamente pelos arredores de sua casa. Comete pequenos delitos em honra do chocolate de cada dia. Participa de causas nobres, como não maltratar qualquer tipo de bichinho. Por causa disso é vegetariano.Tem cabelos negros, que não deixam de ser belos nem quando seu barbeiro erra a mão. Gosta das saboneteiras que as mulheres têm acima do umbigo. As minhas nem sempre me caem bem. Não gosto nem desgosto. Confunde o orgasmo com queda de pressão. Quando me disse isso, juro que gargalhei. Resolveu nos últimos tempos não se ocupar tanto em pensar e repensar as coisas. Quer afastar o sofrimento. Prefere a evasão. E todos os sonhos, mesmo os impossíveis. Ele nada me contou sobre a moça da voz a atravessar vidraças. O que sei é sobre sua melodia melancólica. Sussurro em eco. A tilintar ossos de bicho morto à beira da estrada. Não entendo o que quer dizer. Lembro de Clarice a escrever que o mais importante é sentir. Clarice sempre está perto de mim. Sua presença me acende. A moça da voz me faz um convite pouco sutil, que fica ressonando. E reverberando sem trégua. Ruas de inúmeras encruzilhadas. Estou a viajar em um fusca cor de rosa. Piloto o fusca sem capota. Uso um lenço que me cobre os cabelos. O ar está quente. A estrada está embaçada . Há fumaça por todos os lados. Percorro ruas que são retas intermináveis. A voz é quem me faz companhia. Sinto-me segura, embora envergonhada. A língua me apresenta coreografias de cor encarnada. Desvio o rosto, tímida que sou. E sorrio. Sempre sorrio em momentos como esse. Uso luvas de couro negro. Gosto de minhas mãos. Raramente uso luvas. As mãos falam sem que eu precise dizer nada. Num deserto de chão coral dirijo o que é meu naquele instante. Lembro-me de Gob e escuto a música de seu presente. Gob me surpreende. Gob é só um menino.
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