domingo, 25 de setembro de 2011

De onde se viu



Chão de translúcida areia infinita. Chão de estrada virgem. Chão de montanhas de algodão. Chão de buraco sem fundo. Chão prostituto dos quereres dos ventos do norte. Chão de frágeis trilhas traçadas por fantasmas andarilhos. Chão a desmanchar-se na saliva do sedento mar. Chão espelho da estrela solar. Chão a deslumbrar espetáculo de astros constelados. Chão que não se sabe nuvem ou areal. Chão moradia de resistentes guerreiros do árido.
O que vejo, me é desconhecido a minhas pupilas. A meus ouvidos, porém, já foram contadas histórias, lidas ou faladas, de velhos continentes habitados por porções de uma vastidão desértica. As histórias se reportam à incomensurável força que habita na natureza. O céu, em toda a sua grandiosidade de estar acima de,  expressa-se majestoso. Sobre a terra lança raios de fogo, bufa ares que a tudo move, derrama cachoeiras torrenciais. Exibe-se em fortes tintas azuis e negras, sendo, vez em quando, pintado com pincéis que abusam em tonalidades de que se desconhece nome ou classificação. Põe em seu trono astros que reinam gigantes em períodos que ultrapassam o que é habitual aos outros astros. Seu jogo de claro/escuro impõe como regente maior o sol, que governa soberano o mais dos dias. Sem menor magnitude executa a lua suas atribuições de satélite noite. Suas regências são esplendidamente ornadas em trabalho minucioso de fases, o que explica ter-lhe sido oferecido tempo maior de repouso. A sensação da temperatura na pele é a dos extremos. Ardor de brasa vermelho-sangue, tremor de corpo em monte Everest.
O lugar onde mora o infinito do olhar se espalha em espaços findáveis. Outras histórias confirmam que esse lugar conhece limites. A linha que o contorna é tênue e austera ao mesmo tempo. Evidências de outras atmosferas ao redor. O que causa surpresa e espanto é a condição de múltiplo. Como pode um lugar do espaço se ornar de fantasias extraordinariamente exuberantes em formas e conteúdos variados? A pluralidade dos tons da natureza extasia mesmo os olhos já dados ao hábito do ver e os sentidos já anestesiados por overdoses do sensível. O inexplicável diante do que não espera perguntas ou respostas. Nada se espera.  É-se.
Caminham fortes, vigorosas, em passos desbravadores de solo desconhecido, mulheres que sonham. Sonhos desiguais, que em algum lugar se encontram, reconhecidos que são por sua condição de sonho. Sonhos irmãos siameses, ligados que são por carne e sangue. Entre elas, a pedra da idade. E, sobretudo, o sublime do amor acalentado em útero.
Mulheres que só se conhecem a si mesmas, uma à outra, uma na outra. Forças femininas que duelam juntas diante da grandiosidade do que se impõe sobre elas. Suas existências são lançadas na imensidão de horizonte invisível e no meio do insólito procuram o que se pode respirar vida. E há vida, porque há sonho. Sonho de vida, de ir-se vivendo. O viver de agora é mais simples do que outrora se vivera. É mais simples porque exige menos. Aliás, não há exigências, mas quereres. Querer fazer da negação uma possibilidade de afirmação. Sabe-se que a vastidão que as envolve e as toma tem força incomensurável e que nada se pode contra tal grandeza. Estar-se contrário é matar-se a si. Os dias ensinam que manter-se à deriva é permitir-se seguir vivendo. O que há é o presente, é um dia seguido de outro, e de outro, e de outro. E de cada dia extrai-se a essência de se estar vivo.

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