domingo, 16 de outubro de 2011

Então é assim que se morre?

É cedo, o sol brilha.
Tudo poderia se dar como acontece nos dias comuns.
Abri os olhos. Acordei diferente. Eu ainda não tinha me percebido.
De repente, me fiz escuridão.
O tempo fechou, minha visão só pode ver o escuro do tempo.

(O que estou tentando fazer agora é um esforço de memória, é a tentativa de lembrar do que ainda resta ou do que invento como lembrança. Eu quero crer  que o que penso agora possa guardar o sentimento do instante em que a coisa se fez matéria)

A coisa me apareceu de súbito. Era uma desconhecida.
Ela surgiu negra como a noite e me engoliu com sua grande boca.
Meu gosto ficou amargo.
Eu me apaguei.

Antes do total desfalecimento ainda pude tocar minhas mãos frágeis nos objetos ao redor, que, por um breve momento, me ofereceram sustentação. Minhas pernas buscavam equilibrar-se, manter-se firmes. Exercício vão.  Meus pés derretiam e se misturavam à água que corria como um rio caudaloso.

Antes do total desfalecimento ainda pude me reconhecer. Pude me lembrar da bendita palavra dentre todas as que existem. E a palavra, tendo se feito gente, foi minha salvação.

Me apago. Me apago.
Um fiapo de luz entra em mim. Me acendo fracamente, para depois me apagar de novo.

Escuto meu nome, gritado desesperadamente. Os mesmos gritos desesperados me sacodem e me arrastam, na tentativa de que a vida não escape. O corpo falha e se perde no meio de si mesmo. O corpo falha mas ainda se ressurge a favor de si.
Um tapa no rosto choca meu cérebro e me conduz à pergunta mais profunda que minha cabeça já pode ter se feito: Então é assim que se morre?

Um prenúncio, um toque, um acontecimento, um registro, um estado, um sentimento.

Uma pergunta.

Um corpo que cala e fala.



domingo, 2 de outubro de 2011

Um nome

Eu tenho um nome que não me chama, nunca me chamou. Eu nunca me senti sendo chamada por esse nome, sendo identificada com ele, sendo ele, ele me sendo, ele reverberando em mim.
Tantas vezes eu me perguntei: Por quê?
O meu nome não se parece comigo, não me cola em mim, não me ressona. O meu nome não me nomeia.
Meu nome não é onde eu possa mergulhar.
É permitido que eu escolha um nome pra mim? É permitido que eu me dê um nome, um nome conforme eu me veja e reveja? Um nome que me faça, que me constitua, que me dê inteireza?
Há um nome identidade-de-mim, memória-de-mim, cópia-autenticada-de-mim, assinatura-de-mim?
(Fogos de artifício)
Esses fogos são uma ode ao nome que eu possa me sonhar, ao nome com o qual eu possa me batizar.
Um nome nomeia, portanto, diz o que a coisa é, o que significa e o que pode ser. Não é?
E o que pode ser?
Por que não bicho? Por que não árvore? Por que não pé? Gaiola? Chave? Livro? Nuvem? Janela? Peito? Labirinto? Água? Pedra? Brinquedo? Asa? Coisa? Silêncio? Por quê? Um nome serve pra quê?
Eu sempre estranho o nome com que me chamam. Às vezes eu faço com que a pessoa repita o meu nome duas, três vezes, para que eu realmente possa entender que ela se refere a mim, eu, com esse nome, com aquele nome.
O meu nome é meu?
Por que ter um nome?
Meu nome me diz a mim quem eu sou? Meu nome me percebe, me compreende, me localiza, me preenche, me expressa, me corporifica, me dá alma? Meu nome reconhece o meu passado e o meu eu que está sendo agora nesse instante que passa e que vai passando?
Pra que um nome? Por que um nome?
Em que nome eu estaria? Que nome eu seria?